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Caba Hômi fala sobre o sabor do Pão de Açúcar.
...Estava ainda num sono recente, devido a uma noite de babá, ajudando a cuidar do meu sobrinho, quando escuto uma voz distante, gritando pelo meu nome. Delírio da minha cabeça, já que dormi pouco? Só me recordo de duas doses de Jack Daniels...

Paranóia em Caruaru

Parte 1 de 2 - Sandálias (?!) voadoras e o Santo Jeremias

Mal havia saído do carro, meus pés tocaram o chão de Caruaru pela primeira vez. É estranho falar isso, com 22 anos de idade, e com toda uma geração de amigos que vivem pelo lema de "beber, cair e levantar". Caruaru era a cidade-mãe para aquele tipo de coisa. Todo mundo sabia.

"Eita, véio. O Jornal do Commercio, doido. Wouuwouuuu", gritou um pivete, assim que viu a sigla do carro. Aquele momento me trouxe de volta à realidade. Não estava em Caruaru para beber, cair e levantar, ou dar lapadinhas na rachada (vontade não faltava, admito), ou muito menos dar tapinhas na bundinha e chamar de cachorrinha.

Estava a trabalho, para cobrir o jogo entre Central e Palmeiras pela Copa do Brasil. Daí a empolgação do garoto, quando viu o carro. Não é todo dia que a imprensa esportiva, em peso, vai para o interior de Pernambuco cobrir um jogo. Mas ela estava, para ver Valdívia, Denílson e Cia.

"Vamo nessa, mago", falou Lobo, para mim. Ele e MaicouMaicou eram os fotógrafos. "Mas tu tá ligado que vai apanhar da torcida do Central com essa camisa né?"

Só porque eu estava com a camisa verde-limão, da cor do Palmeiras? Claro que eu não ia apanhar. Mas se eu soubesse antes que ia fazer a partida, trocaria até por uma camisa cor de arco-íris. "Qualquer coisa eu chamo Jeremias José", retruquei, pensando se ele não poderia estar no campo, torcendo pelo Central. Na verdade, era mais fácil ele estar matando mil, porque é caba hômi e gosta de beber no inferno.

Entramos no estádio, e o que escutamos logo depois foi o som de um forró pé-de-serra tocando em algum lugar nas proundezas obscuras das construções. Forró em Caruaru brota igual a água de gruta. Limpinho, natural e em abundância (mas tudo em suas devidas proporções, claro).

Bom, como temia (mas não admitia), tive que passar por dentro da torcida do Central para chegar às cabines de imprensa. Eu, com minha camisa hulk-purpurinado, no meio de uma multidão de branco e preto. Coloquei o crachá na boca, para todos verem lá de cima que eu estava a trabalho, e saí dando passos lentos, dando graças a Deus que, pelo menos, aqueles alvinegros não eram corinthianos.

Foi então que senti um ventinho passando perto da minha cabeça e um grito da galera. Caralho, os caras estão jogando sandálias. Sai da frente, sai da frente, tentei falar, mas a tensão prendeu minha boca. Arrisquei uma olhada para cima e não vi nenhum sacana apontando a mão para mim e gritando: Palmeirense filho da puta!

Me concentrei em uma oração instantânea: Jeremias que estás em Caruaru, bendita seja tua manguaça, venha ao estádio com tua força, e mate mais de mil com seu bafo de cachaça.

A porta para o campo estava quase chegando quando senti o vento outra vez, com novos levantes da multidão. E denovo. E denovo. Caralho, quantas sandálias esse cara tem?

Cheguei no portão, entrei no campo, e os gritos continuaram. Quando olhei para trás, vi que era um morcego, e a cada rasante dele, todos iam ao delírio... Um puto de um morcego (ou talvez não puto... talvez ele tenha salvo minha vida tirando a atenção da galera). Obrigado, batman.

Mas minha paz não durou muito tempo. Na minha frente, se erguia uma parede esverdeada repleta de palmeireses.

Parte 2 de 2 - Privada salvadora, gemidos e deadline apertado

Os alviverdes foram mais tranqüilos. Também tive que passar no meio da torcida, mas eles estavam menos agitados. A confiança pela vitória era grande, o que veio se concretizar depois.

Quando alcançei o camarote de imprensa (esbaforido após um milhão de degraus), dois detalhes me chamaram a atenção. O primeiro é que havia muitas cabines disponíveis. O segundo é que não havia cadeira para ninguém sentar.

"Tem que ir pegar lá embaixo", falou um segurança. Te fode, seu puto. Um caralho que eu desço tudo para subir novamente, pensei, mas não ousei falar. O único que tinha cadeira era Luciano do Valle, que fazia a transmissão para a Band. As outras TVs estavam em algum outro lugar que não consegui (e nem queria) achar.

Depois de andar de um lado para o outro, resolvi me estabelecer em uma das cabines. Quando olho para o lado, eis que está a minha salvadora do dia: a privada marrom. Engraçado que, se eu penso que uma privada me salvou, é porque eu queria descer o barrote e ela apareceu na minha frente. Mas essa não. Serviu como uma fiel cadeira, me ajudando a suportar todo o jogo.

Para vocês terem uma idéia de como o camarote estava sendo levado a sério, tinha um cara lá dentro, entocado em algum lugar, com aquele apitinho de plástico que faz “Ai, ai, ai, titiiiiiia”. E eu pensava que aquilo tinha saído de moda. Total avacalhação.

Foi aí que começaram os gemidos do tabacudo com o apito. Lá estava eu, concentrado no rádio para descobrir quem diabos deu a arrancada do primeiro gol do Palmeiras, quando vem um Aaaaaaai... E depois, para saber quem cruzou a bola para ValdívAAAAAIIIIII... E o chute do Central na trAAAAAAAAIIIII... E o impedimAAAAAAAAIIIIIIIII...

“Caralho, goza logo, porra, pára de gemer”, gritei.

“O que?”, perguntou outro jornalista na cabine ao lado.

“Caralho, toca logo, porra, pára de perder. É Leonardo, ele não ta acertando nada. Fica prendendo a bola, pra aparecer”, respondi.

“Ah, é. Ele ta mal hoje. Mal pra caralho”, o jornalista concordou, e então o assunto morreu.

A partir daí começou a correria pra terminar a matéria. Tinha que entregar assim que o jogo terminasse, por causa da hora do fechamento, junto com a ficha técnica. Eu já estava com ela a meio caminho andado, mas o Palmeiras inventou de fazer mais três gols. Sempre que eu fazia o lead, tinha que refazer e atualizar a ficha e atualizar o final e escutar o rádio e escrever e me agoniar...

Depois daquele estresse, me reuni com os companheiros Lobo, Maicoumaicou e Kennedy (o motorista, não o presidente) para uma pizza regada a uma breja de leve. Alimentados e alcoolizados (menos Kennedy, é claro) pegamos a estrada de volta para o Recife, quase à 1h30.

Foi então que surgiu o momento mágico. Saindo da terra do forró, fiz outra oração para Santo Jeremias. E, para minha surpresa, começou a tocar no rádio a música que ele cantou naquele dia da famosa prisão que ainda ronda nos youtubes da vida (juro em cima dos meus cabelos grisalhos).

“Eeeeei... Sem você não viverei... Todo o amor que eu te dei...”

Um sorriso se abriu na minha boca.

“O que foi?”, perguntou Kennedy, intrigado com minha alegria repentina.

“Nada não”, respondi. Mas estava realmente feliz.

Feliz porque tinha sido abençoado por Jeremias, pelo Forró das profundezas do Lacerdão, e pela cerveja de Caruaru. E foi ali que eu fechei os olhos e adormeci no carro, sabendo que chegaríamos em paz.

A paz da manguaça.

Continua...

Invasão nas escolas públicas de Pernambuco

Cinco horas da manhã... Trimmmmmmmmm, esbraveja o despertador. Um barulho ensurdecedor. Em plena segunda-feira, em vez de eu dizer “Ah... Acordar para mais um dia de trabalho”, o que vem logo na mente é “Puta-que-pariu.. Que horário de corno.” Lá vou eu para a redação da TV.

Ao chegar à emissora me surpreendo por duas coisas: primeiro que não tinha nenhum defunto para fazer matéria, isso logo cedo é uma coisa inédita; segundo que peguei uma pauta um tanto diferente do tradicional da televisão. Teria que mostrar a falta de segurança nas escolas públicas – até aí tudo bem. O ponto principal seria o fardamento. Este ano todas as instituições do estado receberam uma roupa igual, ou seja, o nome das escolas foi extinto. Por tanto qualquer um que colocasse a camisa poderia ter acesso às salas de aula e corredores.

Sete horas da manhã, já estávamos nós (eu e o cinegrafista) na casa dos personagens da matéria. Um pai babão querendo aparecer na TV, e uma pirralha chata, uma pré-adolescente – já disse tudo! Qual era a idéia da redação? Que eu me vestisse de estudante, e com a farda e os livros na mão entrasse na escola. Justamente para provar o livre acesso. Como não sabia que iria fazer isso, estava vestido normalmente para trabalhar. Agora veja que cena ridícula: eu de calça social e com uma camisa do Governo.

Entrei em duas escolas no bairro de Santo Amaro, Centro do Recife. Os estudantes ficaram pensando que eu era um mauricinho, que depois de ter reprovado numa escola particular, teria que estudar ali como castigo. Acho que foi por isso que recebi olhares de indignação! Dava um bom dia, ninguém respondia. A indiferença durou pouco, até que eu me transformei num repórter... Aí vieram os sorrisos e a aproximação. A vontade que deu foi de mandar todos para casa da puta-que-pariu, todo mundo de perna arreganhada. E para acabar de lascar a diretora ainda veio empombar comigo... Mas, mas, mas...

Na rua, de frente a escola, o cinegrafista ainda conseguiu me deixar azul na imagem... Enfim, deu uma cagada. Mas, nada de mais. A merda é que tive que ir e voltar na emissora duas vezes... E na tv, tempo é ouro. No final da novela a matéria foi para ar no TV Jornal Meio-dia, e foi um sucesso. Todos gostaram e entraram no clima do jornalismo gonzo.

Continua...

A experiência de um pernambucano sobre um lugar de todas as línguas

É sábado de manhã. Estava ainda num sono recente, devido a noite de babá, ajudando a cuidar do meu sobrinho, quando escuto uma voz distante, gritando pelo meu nome. Delírio da minha cabeça, já que havia dormido pouco? Será que bebi tanto assim? Só me recordo de duas doses de Jack Daniels... Bem, ainda não tinha enlouquecido. Alguém realmente me chamava: era o meu pai, me despertando para que eu finalmente conhecesse os principais cartões postais do Rio de Janeiro. Tomo um rápido banho, café às pressas e pego um táxi. Tudo para saber o mistério sobre o verdadeiro sabor do Pão-de-Açúcar.

Assim que chego na Urca, bairro em que o morro está localizado, me impressionei com o tamanho e a distância para o solo, digamos, seguro. No caminho para a bilheteria do bondinho, já percebi que iria me misturar com todo o tipo de gente. Vi um alemão com uma camisa da seleção brasileira – típico – guiando um grupo de cerca de 20 outros conterrâneos seus e dois casais de norte-americanos. “É, o sabor do Pão-de-Açúcar deve ser mesmo ímpar”, pensei eu. Paguei a “bagatela” de R$35,00 e me dirigi à fila que dava acesso ao bondinho. Olhando nas placas de informações, percebi que o morro com o qual me impressionei, não era o Pão-de-Açúcar e sim, o Morro da Urca, o “intercâmbio” entre o solo carioca e o gigante saboroso.

A altura do Morro da Urca é de 401m e a distância para o Açucarado (nesse momento, já estava íntimo do meu “colega” misturado, por isso o chamo assim) é de 749 metros. Outras coisas me chamaram a atenção no percurso: o tempo que o bondinho leva para chegar aos seus destinos é muito pouco (cerca de 3 minutos, com uma velocidade média de 36km/h) e a quantidade de gringos que passam por ali. Não sei se foi coincidência, mas pelo pouquíssimo que sei dos outros idiomas, pude perceber pelo menos 6 origens diferentes dentre os muitos visitantes do lugar. O limite máximo do bondinho é de 60 pessoas, e, por baixo, umas 20 dessas eram de outras nacionalidades. Alemães e norte-americanos (que já citei), espanhóis, franceses, chineses e italianos eram alguns deles.

Quando cheguei ao alto dos seus 797m, já me sentia diferente. Não sei que porra foi aquilo, mas eu mudei. Pois é minha gente, pode parecer utopia ou algo meio gay, mas aquela beleza, aquela distância da população e aquela altura toda fazem a gente ver a vida com outros olhos. Queria que os meus companheiros de blog estivessem ali comigo, naquele momento. Com certeza íamos comprar umas Skols na lanchonete lá de cima e curtiríamos o visual, além das merdas costumeiras.

Pois bem, por falar em blog, por causa desse nosso bendito espaço, eu não poderia passar por ali sem fazer o meu papel de ridículo não é? No meio de gringos e gente de todas as partes do Brasil, lá vai eu pedir para ser registrado o momento em que eu deveria mostrar que provei do Pão-de-Açúcar. É minha gente, eu provei e senti o sabor dele. A foto que vocês vêem nessa matéria (ou não) é do exato momento em que este reles repórter se ajoelhou, colocou a língua pra fora e abocanhou o morro. Nesta hora eu senti como se todos os olhares ali presentes estivessem voltados para mim. Confesso que fiquei um pouco envergonhado, mas depois pensei “Quer saber? Não devo nada a ninguém mesmo!” e curti o momento.

O que meu paladar percebeu foi um gosto meio amargo, bastante misturado. Mas acho que tudo isso se deve ao tempero de todas as etnias que passaram e passam por ali. E querem saber qual o sabor do Pão-de-Açúcar? Só indo lá para saber, de verdade! Mas para não deixar vocês, meus queridos leitores, amigos, colegas e curiosos só com água na boca... Vou dar uma dica. Preparem uma massa meio grossa, sem sabor. Adicionem molho choyo, uma pitada de chili, um pouco de bolonhesa, hambúrgueres, kibes, espaguete, feijoada, champanhe... Não tem nada a ver com o gosto de lá, mas consegui dá uma misturada boa de pratos e temperos típicos de vários países né =D?!

Após tudo isso, fui almoçar num self-service, peguei outro táxi e me dirigi ao Corcovado. Já tinha visto o Cristo por fotos, andando pelas ruas do Rio e também do próprio Pão-de-Açúcar, mas ir até lá? Poxa, também foi uma experiência única! Mas essa história... bem, essa história eu deixo para outra matéria. Txipu assim... acabou ô meu!

Continua...